segunda-feira, 27 de agosto de 2012

“O OUTRO”

Por que clamas aos deuses, às estrelas,

às espumas de ocultos oceanos

ou às sementes de jardins longínquos,

se o que te fere é a tua própria vida,

se o que crava as garras nas tuas entranhas

é o nascer de cada novo dia

e a noite que cai,

retorcida e assassinada?

Se o que sentes é a dor em outro alguém,

que não conheces mas que está sempre

presente

e é vítima, inimigo, amor,

e tudo aquilo de que

precisas para alcançar a totalidade?

Não te entregues ao poder das trevas

nem esvazies de um só trago a taça do prazer.

Olha à tua volta: existe outro alguém,

sempre um outro alguém.

O que ele respira é a tua asfixia,

o que ele come á a tua fome.

Morto, levará consigo a metade mais pura

da tua própria morte.

~ “El Otro”, de Rosario Castellanos
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