sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A ESTRADA DA VIDA

Um dos mais lúcidos textos sobre a espiritualidade que já li. Merece ser compartilhado. Autoria de Hugo Lapa
 
 
 
Certa vez eu tive um sonho muito revelador…
 
Sonhei que estava num vale lamacento meio escuro e de uma extensão que os olhos não eram capazes de ver o fim. Neste vale atravessavam dezenas de milhares de almas, cada uma delas caminhando por cima de uma lama de cor marrom-escura. O local era meio lúgubre, obscuro, tétrico.
 
Comecei a caminhar por toda a sua extensão. Vi as almas peregrinando pelo vale e cada uma levando consigo alguma bagagem, uma espécie de sacola com alguns dizeres. Vi pessoas carregando um saco escrito “crenças”; outras estava escrito “carreira”; em outras se podia ler “filhos” ou “esposa” ou “pais”; algumas continham a palavra “comida”, “bebida” ou “vícios”; cada qual carregava um saco, maior ou menor, onde continha a imagem de seus apegos. Os sacos mais pesados que pude ver estavam escrito “medos”; outros estavam escrito “orgulho”, “egoísmo” e no outro “vaidade”. Tudo isso que essas almas carregavam lhes criava uma carga maior ou menor, com mais peso ou menos peso.
 
O drama que elas viviam era ter que atravessar todo aquele lodo com sacos ou bagagens tão pesadas, e conseguir seguir em frente. Pude notar almas cruzando a lama que começavam a afundar; outras, que carregavam sacos mais pesados, submergiam ainda mais; havia algumas almas que, de tanto fardo que levavam consigo, já não podiam sequer prosseguir, e acabavam afundado até o pescoço, incapazes de se mover. Mas mesmo essas almas que estavam no fundo da lama não soltavam o saco pesado que conduziam pelo vale. Quanto mais pesado era o saco, mais a alma afundava e mais presa ficava.
 
Continuei caminhando e vi almas nas mais diversas situações. Vi também focos de luzes que se aproximavam das almas no fundo da lama e pediam para que largassem o saco, para que ficassem mais leves e pudessem ser resgatadas. Muitas delas, mesmo presas até o pescoço, se recusavam a soltar sua carga pesada. “Você ficará presa até soltar seu peso” disse um foco de luz. “Não quero soltar” disse a alma cujo saco estava escrito “orgulho” e que estava totalmente envolvida pela lama e incapaz de se mexer. Mesmo estagnada e presa, elas se agarravam fortemente ao seu objeto de apego e ficavam lá, paradas, afundando.
 
Algumas almas tentaram construir casas, palácios e fixar moradia definitiva. No momento em que terminavam suas construções, sua residência começava a afundar, e elas passavam a sofrer pelo sentimento de perda. Algumas eram tomadas pela lama junto com suas criações. Outras ficavam com medo de andar e afundar, mas, por incrível que pareça, mesmo paradas elas afundavam lentamente. Quem não seguisse em frente, naufragava no excruciante lamaçal.
 
Caminhei mais e mais, por dias ou até semanas, e vi também umas poucas almas que não levavam coisa alguma consigo. Essas andavam bem mais rapidamente, deixavam as outras para trás, e nessa condição, não afundavam. Pude perceber que essas almas mais desprendidas começavam a chegar num local onde existia mais luz, um espaço infinito, com grama verde, muitas flores, pássaros cantando, uma brisa suave e impregnado de muita paz e alegria.
 
Continuei andando e ouvi uma voz suave, nem masculina nem feminina, dizendo: “Este é o nosso mundo…”
 
Fiquei espantado com aquela revelação. “Por que seria o nosso mundo?” perguntei.
 
O ser luminoso me respondeu:
 
“As almas que aqui estão caminham erráticas pelos firmamentos efêmeros, movediços e oscilantes do mundo material, sem a compreensão de que o nosso físico é instável e sujeito a transformações constantes. A inexorável transformação do universo físico captura as almas que nele se apegam e as prende até que elas decidam soltar toda a carga ilusória acumulada.”
 
Isso fazia todo o sentido. Perguntei aquele ser de luz que lição se podia tirar de tudo aquilo, e ele respondeu:
 
- Em pouco tempo você vai acordar deste sonho, mas lembre-se desse ensinamento: a vida é uma travessia, não tente montar acampamento nem conduzir cargas pesadas, pois você se prenderá e sofrerá. Apenas cruze o vale do mundo, todo ele. Não fixe, neste local transitório, a sua morada.
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